‘Explosão laranja’ na Usina Presidente Vargas mobilizou a população
Um novo episódio na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) assustou os moradores de Volta Redonda na tarde desta quarta-feira (28): uma explosão causou forte estrondo, emitiu fumaça alaranjada e causou tremores dentro e fora da Usina Presidente Vargas.
Segundo nota oficial CSN, a explosão foi resultado de uma operação de cambagem (ou descarregamento) de ferro-gusa de um carro-torpedo no Poço de Tombamento na Usina Presidente Vargas. O contato do material em alta temperatura com excesso de umidade no solo ocasionou uma forte reação, com liberação de calor e fumaça em proporções visíveis tanto no interior quanto no entorno da usina. Até o fechamento desta edição, as causas do acidente ainda estavam sob apuração da empresa. A CSN também afirmou, categoricamente, que nenhum funcionário se feriu após a explosão.
Ainda na tarde de quarta, o Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense publicou uma nota de esclarecimento sobre a explosão com texto idêntico ao pronunciamento emitido pela CSN, sem acrescentar novas informações. O sindicato garantiu, na nota, que cobrará apuração dos fatos e tomada de medidas necessárias para garantir a segurança dos trabalhadores.
Segurança na CSN é questionada pela população
Esta é a segunda ocorrência registrada na CSN em outubro deste ano: há cerca de duas semanas, um acidente no setor de Dessulfuração de Gusa provocou a morte de Sinval Teixeira de Carvalho, de 63 anos. O funcionário era ajudante de linha férrea da terceirizada Companhia Brasileira de Serviços da Infraestrutura (CBSI). Na ocasião, a CBSI afirmou que as causas do acidente estavam sendo apuradas; até o momento, nenhuma atualização foi divulgada.
O número de empregados que foram vítimas de acidentes fatais na empresa chegou a quatro em menos de dois anos. Dados do Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro (MPT-RJ), divulgados em junho deste ano, mostram que a empresa acumula 1.082 acidentes de trabalho ao longo desta década (de 2020 a 2026), com oito mortes no total.
Nos últimos 24 meses, foram seis acidentes com quatro fatalidades. As vítimas foram o ajudante de linha férrea Sinval Teixeira de Carvalho, de 63 anos, nesta terça; o mecânico de manutenção Magno Rodrigo Vieira de Almeida, de 45 anos, em maio deste ano; a auxiliar de Limpeza Industrial Lauriene Cristina Leal de Souza, de 28 anos, em janeiro de 2025; e o mecânico Bruno José Oliveira das Neves Paiva, de 40 anos. Os três primeiros eram funcionários da Companhia Brasileira de Serviços da Infraestrutura (CBSI), terceirizada na CSN.
A CSN registrou outros dois acidentes desde 2025, que resultaram em ferimentos de funcionários: uma operária de 26 anos, que trabalhava na área de Aços Longos, em 2026; e um técnico de manutenção mecânica ferido após um incidente ocorrido na bobinadora da Linha de Tiras a Quente 2 (LTQ2), no ano passado.
A CSN já havia apresentado um alto número de acidentes e fatalidades em um curto período de tempo. Em 2023, foram registrados quatro acidentes, incluindo um vazamento de líquido quente, na aciaria, que causou fortes estrondos e deixou dois funcionários feridos. Houve ainda três mortes e mais duas hospitalizações por vazamento de gás tóxico na Usina Presidente Vargas.
Descaso com os funcionários
Em todos os casos de acidente, a CSN e a CBSI seguem o mesmo protocolo: o envio de uma nota à imprensa que “informa, com pesar” o falecimento da vítima. Por meio da nota, as empresas manifestam ainda solidariedade a pessoas próximas, e comunicam que prestarão assistência aos familiares.
Com relação às causas que fazem vítimas fatais ou deixa trabalhadores feridos, as empresas afirmam que a causa será sendo apurada. Entretanto, ambas também seguem o padrão de não divulgar atualizações sobre os casos, nem informar a conclusão de fato das investigações.
Audiência pública pede por mais compromisso
Uma audiência pública promovida pelo Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro (MPT-RJ), em junho deste ano, reuniu autoridades, especialistas e trabalhadores para discutir medidas de saúde, segurança e prevenção de acidentes e adoecimentos de trabalhadores da CSN. Na reunião, foi apresentada a pesquisa da Inspeção do Trabalho que identificou o total de acidentes ocorridos na empresa nos últimos anos.
Os participantes abordaram os principais desafios relacionados à saúde e à segurança dos trabalhadores da CSN e apresentaram propostas para o enfrentamento desses problemas. Durante o encontro, o público constatou que os acidentes de trabalho possuem causas multifatoriais, decorrentes da interação de fatores organizacionais, ambientais, técnicos e humanos, afirmando que a responsabilidade pelas ocorrências não podem ser atribuídos exclusivamente à conduta do trabalhador.
Os participantes também destacaram a necessidade de superar a concepção de “ato inseguro” como causa única dos acidentes, reconhecendo que a prevenção efetiva pede que a empresa faça uma análise das condições de trabalho e dos fatores que contribuem para a ocorrência dos eventos lesivos. O excesso da jornada de trabalho foi citado como um fator causador de acidentes durante o debate.