Por Lanna Silveira
Especialmente no Brasil, o mês de abril é dedicado a celebrar os discos de vinil: uma forma de mídia física que ultrapassa gerações sendo um dos principais itens de colecionador, principalmente entre amantes de música. A comemoração é atribuída ao mês pelo Dia Nacional do Disco de Vinil ser relembrado no dia 20 de abril desde 1978, em homenagem ao compositor brasileiro Ataulfo Alves, falecido dez anos antes nesta mesma data.
Para entrar no clima de festejo, o Correio Sul Fluminense fará uma série de reportagens para dar voz a todas as formas com as quais os discos de vinil podem tocar vidas, passando pela mania de colecionador; pelos comerciantes; e pelos artistas musicais que se encontraram criativamente no uso dos vinis.
Colecionadores: o charme analógico em meio a um mundo digital
Muitos dos colecionadores fazem parte de gerações que não foram habituadas a fazer o uso dos discos desde a infância, mas acabaram desenvolvendo apreço pelos vinis na vida adulta. Os motivos para iniciar a coleção são variados, indo desde a vontade de ter contato com uma forma diferente de ouvir música; a curiosidade de entender mais sobre musicalidade e diferentes gêneros, usando a pesquisa pelos vinis como uma ferramenta para aumentar esse conhecimento; até uma “simples” mania de colecionador.
A DJ Dayene Teobaldo, moradora de Barra Mansa, começou sua coleção em 2014; sua principal influência partiu de um amigo que fez na época, que também era DJ e possuía uma extensa coleção de LPs. Foi esse mesmo amigo que a presenteou com um toca-discos para que pudesse escutá-los. Hoje, Dayene possui mais de cem discos: os gêneros mais presentes em sua coleção são rock internacional dos anos 80 e 90, além de MPB dos anos 70 e 80 – sendo que a música brasileira é a mais influente em sua pesquisa como DJ.
Alguns de seus achados preferidos são de cantoras lendárias da MPB, como Marina Lima, Gal Costa e Rita Lee. Um dos maiores orgulhos de Dayene é ter dificuldades de encontrar discos que já não façam parte de sua coleção quando passa por feiras ou lojas de discos.
Já o jornalista Matheus Queiroz, que mora na cidade do Rio de Janeiro, coleciona mídias físicas desde a infância: sua coleção começou com CDs e DVDs e se encaminhou para os discos de vinil em 2019. Quem o influenciou foi seu namorado, que o levou para feirinhas no centro do Rio.
A princípio, o apelo dos vinis para Matheus era o visual dos discos, além de imaginar como seria a experiência de ouvi-los. O jornalista comprou uma vitrola cerca de dois anos depois de iniciar sua coleção. Apesar de adquirir lançamentos recentes, o charme, para ele, é o ritual de ouvir um disco antigo e se aproximar da forma como a música era vivenciada em outras épocas. “Claro que tem limitações: detalhes e camadas da música que a gente consegue ouvir no streaming e não vai ouvir nos vinis. Mas, para mim, [isso] é um pouco da graça. ‘Remontar’ como era ouvir música antigamente”, acrescenta.
Grande parte da coleção de Matheus, que possui mais de 150 discos, também é composta por lendas da MPB, como Roberto Carlos e Rita Lee, assim como trilhas sonoras de novelas brasileiras. É uma coleção que, para ele, ajuda a ilustrar a história da música brasileira nos últimos 40 anos.
Já Isadora, produtora cultural que faz parte da organização da Roda Cultural de Volta Redonda, teve seu hábito de colecionadora bastante influenciado por uma referência familiar, com a qual compartilha o amor pela música e o apreço pela coleção de mídia física. Outro grande motivador foi seu contato com a cultura hip hop, já que os vinis são um recurso muito utilizado pelos artistas do movimento.
— A partir deles, DJs criam batidas, montagens com vinis diferentes, samples… isso me fez pesquisar muito quando adolescente, principalmente por me interessar pelas músicas sampleadas. Eu achava que seria muito legal ter os LPs das músicas que haviam sido sampleadas, entende? Achava que era uma forma de me aproximar da cultura e dos artistas que eu estava ouvindo — explica.
A coleção de Isadora, que já acumula cerca de 200 títulos, é repleta de obras da “black music”, representada por gêneros como soul, pop soul e R&B, além da MPB, queridíssima entre os ouvintes. Apesar de ter seus gêneros musicais e artistas preferidos, a produtora cultural sempre busca se abrir para trabalhos diferenciados na hora de atualizar sua coleção.
— Quando saio para garimpar, às vezes penso: “seria muito bom achar o disco tal”, como quem joga para o universo. Mas o desejo vai se atualizando (…) Então o garimpo pode ser meio enviesado pelo que estou ouvindo naquele mês.
Alimentando a coleção
Na região Sul Fluminense, a loja Passarela Discos, no bairro Aterrado, é uma das mais conhecidas pelos colecionadores de Volta Redonda ou cidades próximas. Com a popularização cada vez mais pulsante dos vinis, muitos selos e revistas musicais investem na produção de discos – fazendo a prensagem de novos lançamentos ou de discos que passaram anos sem receber novas edições -, oferecendo planos de assinatura mensal para que os leitores possam obter discos novos por valores menos salgados. É o caso, por exemplo, da Revista Noize, da qual a entrevistada Dayene foi assinante em diferentes momentos da vida.
Todos os entrevistados são mais apegados à experiência do “garimpo” em lojas físicas: se permitir conhecer novos álbuns e acabar se encantando por discos e artistas que sequer estavam no seu radar. A compra de discos em lojas online tem níveis variados de aceitação: por já possuir muitos dos discos que mais gostaria de ter em sua coleção, Dayene costuma comprar online com maior frequência atualmente, buscando sempre álbuns específicos. Matheus também tem mais costume em fazer compras online, por morar longe do centro da cidade – e longe de lojas e feiras de discos, por consequência. Isadora, por sua vez, só compra online em último caso; entretanto, destaca que as lojas digitais podem funcionar melhor para os colecionadores que buscam LPs de novos lançamentos.
Por entender que colecionar vinis não é um hábito de baixo custo, os colecionadores não costumam estabelecer um orçamento “exato” de limite para compra: tudo depende de quantas “boas oportunidades” são encontradas em cada garimpo. Se um disco está a um bom custo-benefício, se está bem conservado, se tem uma certa “raridade” e se existe uma vontade muito grande do colecionador em chamá-lo de seu. Isadora e Matheus ressaltaram que, caso encontrem achados “imperdíveis”, não se restringem em gastar valores mais altos. “Já teve garimpos em que gastei uns 600 reais nos discos; não porque estava realmente querendo esbanjar, mas porque entendi que estava diante de [discos] que dificilmente iria encontrar em melhor estado, ou com um preço melhor. Como colecionador, não dispenso essas oportunidades”, exemplifica Matheus.
O apelo dos vinis
Para os colecionadores, um dos maiores charmes dos vinis – especificamente dos usados, ou repassados por familiares – é a possibilidade de carregar as marcas e histórias deixadas por antigos donos. Os entrevistados pelo Correio ressaltaram a diversão que sentem quando encontram algum tipo de registro deixado em discos usados. Matheus ressalta as dedicatórias como um de seus detalhes preferidos.
— Me sinto levando uma parte da vida de alguém. As vezes a pessoa quis se desfazer por algum motivo, mas o carinho que a pessoa depositou ao presentear aquele vinil ainda continua comigo —explicou.
Para Dayene, um dos destaques de sua coleção é o disco “Falso Brilhante”, de Elis Regina, que que possui uma dedicatória de uma tia falecida há mais de 20 anos para sua mãe. Para Isadora, esse carinho é dedicado ao LP do álbum de estreia de Ed Motta, “Um Contrato com Deus”, que possui uma série de recortes de jornais e críticas musicais do álbum reunidas por seu antigo dono em sua embalagem.
— O dono da loja [em que comprei o disco] me contou que havia comprado um lote de um jornalista e crítico musical do Rio e que esse LP era da coleção dele. Essa é uma das grandes delícias de garimpar — concluiu.