Família de Dicler Simões recorda acidente que matou JK na Via Dutra

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Juscelino ao lado de João Goulart, seu vice, na inauguração de Brasília, antes de ser deposto. Foto; Divulgação

Relatório aponta que ex-presidente pode ter sido vítima do regime militar; família de jornalista recorda cobertura no Médio Paraíba

Por Sônia Paes

A divulgação do relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos apontando jovos rumos para a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, em 22 de agosto de 1976, na Rodovia Presidente Dutra, reacendeu um debate histórico em todo o país e, em especial, em municípios do Sul do Estado do Rio, onde há 50 anos aconteceu a tragédia. A fatalidade que levou à morte de JK está até os dias atuais na memória de pessoas que vivenciaram o caso. Uma das famílias é a do jornalista Dicler Simões, falecido em 29 de março de 2008, aos 70 anos.

Dicler Simões, então chefe de jornalismo da extinta TV Sul Fluminense, afiliada da Bandeirantes, e correspondente do jornal “O Globo” por 38 anos, foi o primeiro a chegar ao local do acidente, ao lado do então perito policial Nelson Ribeiro de Moura. “Ele (Dicler Simões) conseguiu o número de Sarah Kubitschek e telefonou para ela, falando da morte de Juscelino, mas a esposa achou que tratava-se de um engano. Disse a ele: Todo dia alguém mata o meu marido”, recorda-se Dicler de Mello e Souza, também jornalista e filho de Dicler.

Naquele 22 de agosto, o jornalista estava em Barra Mansa-RJ, cidade vizinha a Resende-RJ, e teve a informação sobre o acidente, mas até então ninguém sabia que tratava-se de JK. “Ele seguiu para fazer reportagem sobre o acidente e descobriu que uma das vítimas fatais era o ex-presidente”, afirma dona Giza, de 84 anos, viúva de Dicler Simões. Ainda segundo ela, a informação divulgada na época era de que Juscelino estava indo para Penedo, uma colônia filandesa que pertence ao município de Resende.

Comoção nacional

As imagens do veículo destruído causaram forte comoção nacional e na região do Médio Paraíba. O Chevrolet Opala preto onde viajava o ex-presidente Juscelino Kubitschek ficou completamente retorcido após atravessar o canteiro central e colidir violentamente com uma carreta. Peças do veículo ficaram espalhadas pela pista, segundo registros feitos na ocasião.

No início, poucos imaginavam que uma das vítimas era o homem que havia construído Brasília e marcado a política nacional. O reconhecimento do ex-presidente provocou uma onda imediata de perplexidade. Em uma época sem internet, a informação correu rapidamente pelas rádios da região e cidades do Médio Paraíba.

Relatório aponta envolvimento de regime militar

Os dados divulgados, na semana passada, pela Folha de São Paulo, indicam que JK morreu a mando do regime militar. O relatório será submetido à votação dos outros integrantes da comissão. Se aprovado, o documento poderá levar o governo federal a rever oficialmente a causa da morte de JK. Até então, continua valendo a versão oficial da Comissão Nacional da Verdade, que em 2014 concluiu não haver provas suficientes de assassinato.

O documento, com mais de 5.000 páginas, foi elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão e contradiz o da Comissão Nacional da Verdade. O atual relatório vai de encontro com a linha de investigações da Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog que dava indicações de um possível atentado. Entre os principais pontos levantados pela CEMDP, estão supostas falhas periciais, desaparecimento de documentos, contradições em depoimentos e dúvidas sobre a dinâmica da colisão. A investigação da CEMDP, instituída por lei em 1995, durante o governo de FHC, questiona a rapidez com que o caso foi encerrado.

A comissão relaciona a morte de JK ao ambiente repressivo da década de 1970 e cita a possibilidade de ligação com a Operação Condor, articulação entre regimes militares da América do Sul para perseguir opositores políticos. O relatório lembra que o ex-presidente era visto por setores da ditadura como uma liderança capaz de reorganizar forças democráticas no país, mesmo após ter os direitos políticos cassados.