Coletivo oferece um espaço seguro e potente para comunidade LGBTQIA
Por Lanna Silveira
Uma das iniciativas culturais mais frutíferas da região Sul Fluminense comemora nove anos neste ano: o coletivo Swave, consagrado como um espaço de protagonismo LGBTQIA e de apreciação musical. Suas festas, normalmente promovidas em Volta Redonda, se tornaram um evento queridíssimo entre o público jovem da região, sendo apelidada de “Su” pelos frequentadores mais cativos. Esse carinho é consequência da dedicação intensa de seus organizadores em oferecer um espaço seguro para minorias e que incentive a expressão individual e artística.
O palco da Swave é ocupado por músicas de diversas vertentes populares e eletrônicas, como house, R&B, hyperpop, electro clash, hip hop, city pop e outras. O apelo dessa curadoria ao público é a seleção de músicas e artistas que, normalmente, não ocupam a discotecagem de festas mais populares da região.
Para além da trilha sonora, a “Su” representa, para seus frequentadores, uma oportunidade para extravasar toda a sua individualidade: um momento para dançar, se encontrar com amigos, conhecer pessoas e se expressar esteticamente.
Atualmente, o coletivo é formado por três DJs: Lucas (Harajuice), Mauro (Mau) e Carol. Para participar da comemoração, o Correio Sul Fluminense conversou sobre toda a trajetória da festa com a Carol, passando por tópicos como o início do coletivo, a evolução de sua proposta e todos os seus impactos na cultura da região.
O começo de tudo
A Swave nasceu em 2017 com a proposta inicial de uma “festa de verão LGBT”: normalmente, acontecia em tardes de domingo, oferecendo uma curtição do entardecer com uma trilha sonora de música brasileira. A vontade de se unir em um coletivo próprio, segundo Carol, surgiu de uma resistência perceptível das casas de show da região em abrir espaço para DJs que buscam explorar sons menos comuns e buscar uma atmosfera mais voltada para a apreciação e a expressão pela música nos eventos.
— Toda essa vontade de fazer algo diferente do convencional vinha da limitação que encontrávamos ao produzir e tocar em casas da região, existia muita resistência por parte delas em absorver nosso trabalho e pesquisa musical. Essa questão criou um cenário de “ou a gente cria algo novo ou não teremos um espaço de lazer que seja minimamente do jeito que acreditamos.” Começamos aos poucos, com eventos bem pequenos e que pareciam mais uma festa de amigos, à medida que o tempo foi passando mais gente foi chegando e somando forças — contou Carol.
A cena musical independente da região já era pulsante naquela época – com a presença de coletivos como Bafro, Corja e Imbica, que são referências de organização até hoje, e a Roda Cultural, que chegou a ser tombada como Patrimônio Cultural de Volta Redonda. Apesar disso, a organização de eventos sem o auxílio de patrocinadores sempre foi uma realidade difícil: a força principal do ramo de eventos da região era mais presente em festas voltadas para outros tipos de público, que se distanciavam do tipo de ambiente que a Swave pretendia criar. Além disso, faltavam espaços que acolhessem propostas menos “mercadológicas” e faltava uma conexão maior entre os produtores culturais da região.
— Quando a gente fala [de meados da década de 2010], a região estava vivendo um momento de reacender cultural. A região sempre teve esse potencial, mas vinha de anos anteriores mais apagados. Parecia que estava todo mundo passando por uma transição, testando novas linguagens, entendendo novos caminhos. Nesse momento, começa uma retomada. As pessoas voltam a ocupar mais a cidade e começam a surgir ou se fortalecer coletivos, eventos e movimentos. A Swave surge justamente dentro desse contexto; como uma resposta a essas lacunas.
Evolução através dos anos
Começando com uma proposta de “encontro descompromissado entre amigos”, a proposta da Swave veio se ampliando naturalmente ao longo desses nove anos. A intenção de conectar pessoas pela música ainda é muito presente: a diferença é que, hoje, o coletivo entende o tamanho da sua força na cultura local e a usa para oferecer um espaço para outros DJs e multiartistas regionais. As lines se tornaram cada vez mais diversificadas — algo que também trouxe uma gama maior de gêneros musicais para a festa — e são sempre um reflexo dos talentos mais quentes que a região oferece no momento.
Para Carol, a construção da line-up das atrações e artistas convidados é um ponto muito importante na identidade que a Swave busca construir: como uma festa que tem como público principal a comunidade LGBTQIAP e também abriga outras minorias, o coletivo busca refletir esse acolhimento no seu palco. Tudo isso reflete um senso de responsabilidade do grupo com o espaço cultural que está sendo construído junto ao público.
— A gente pensa muito em recortes de gênero, racial e social. Existe um cuidado real com quem está ocupando aquele espaço, não só artisticamente, mas também simbolicamente. A gente ama e valoriza muito os artistas da região, mas também entende a importância de ampliar a presença de pessoas LGBTQIAP no line e nas apresentações, além de priorizar pessoas pretas.
A sensação de caminhar rumo a dez anos de dedicação a uma festa tão bem aceita pelo público é “gratificante” para o coletivo; principalmente, por sua organização ser feita de maneira completamente independente, sem usar o auxílio de nenhum tipo de patrocínio. Mesmo com toda a projeção conquistada pela Swave, o planejamento de cada edição ainda tem dificuldades: desde a distância geográfica entre os DJs organizadores, que exige que as festas sejam pensadas online, até outras decisões difíceis, como a administração de custos monetários e o compromisso em sempre remunerar devidamente cada artista que aceita participar da line. Para Carol, o esforço para garantir sua permanência na noite interiorana é uma das características que traz destaque à Swave e inspira todo o resto da cena a ter a ousadia de investir e organizar suas próprias propostas.
— Dentro da cena, acho que a Swave ocupa esse lugar de continuidade. De insistência mesmo. De mostrar que é possível manter um projeto vivo por tantos anos, mesmo com todas as dificuldades que existem fora dos grandes centros — reforça Carol.
Swave eu vou comer seu bolo!
Os nove anos do coletivo receberão uma comemoração à altura: neste sábado (6), a festa acontecerá no Clube Fotofilatélico de Volta Redonda, começando às 16h e com previsão de término às 23h. A line reunirá nomes de peso da cena regional e estadual: Carol, Mau e Harajuice se unem à Josafá, do coletivo de hip hop Festa Fundamento; Asajj e Afterniv, residentes da festa eletrônica Dance Music Therapy; e Cartho, atualmente residente do Rio de Janeiro que já figurou em grandes festas como Lâmina e V de Viadão. O palco da Su também se abre às performances artísticas de Elektra e do coletivo ballroom Najah.
A line tem a intenção de ser um recorte desses nove anos de história, trazendo pessoas que ajudaram a construir essa trajetória: tanto discotecando em outras edições, quanto frequentando a festa ou simplesmente servindo como inspiração para o coletivo.
— E a gente quer que [a festa] seja um espaço pra se jogar mesmo, dançar até as pernas ficarem doces! Nada mais justo do que celebrar esse caminhar pra fortalecer os próximos passos. E claro, junto com o público que sempre esteve presente, lotando as edições, deixando o clima gostoso. A gente é muito grato a quem constrói isso com a gente. Comemorar um aniversário sem as pessoas que ajudaram nesse caminho simplesmente não teria graça — conclui Carol.