Em Resende-RJ, uma das unidades industriais mais estratégicas do país transforma urânio em combustível para abastecer usinas nucleares
Quem passa pela Rodovia Presidente Dutra, mais precisamente no trecho que corta o município de Resende-RJ, dificilmente imagina que no local funciona uma das instalações mais estratégicas do setor energético do Brasil. Trata-se da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), responsável pelo enriquecimento de urânio. A empresa é vinculada ao Ministério de Minas e Energia e abastece as usinas nucleares do país, situadas em Angra dos Reis-RJ, na chamada região da Costa Verde do Estado do Rio.
A reportagem do Correio Sul Fluminense, do Grupo Correio da Manhã, percorreu todo o interior da INB e conheceu, minuciosamente, as etapas do processo de produção do combustível nuclear. A visita foi guiada pelo gerente de Engenharia de Processos e Tecnologias, Rodrigo Aparecido Barbosa, que detalhou todo o ciclo, desde a mineração do urânio, na Bahia, até a montagem do elemento combustível, em Resende-RJ.
O enriquecimento de urânio é realizado por meio da transformação do minério em gás, utilizando ultracentrífugas para separar o urânio-235 (mais leve) do urânio-238 (mais pesado). Na natureza, o urânio possui apenas 0,7% do isótopo 235, e o processo aumenta essa concentração.
Depois do enriquecimento, o material passa pela reconversão química, é transformado em pastilhas cerâmicas de dióxido de urânio e inserido em tubos metálicos especiais, formando as varetas de combustível.
Essas varetas são agrupadas em elementos combustíveis que seguem para as usinas nucleares de Angra 1 e Angra 2. Angra 3, caso entre em operação, também será abastecida pela produção nacional.
SEGURANÇA PERMANENTE
Uma instalação que manipula material nuclear exige, naturalmente, protocolos de segurança muito além dos padrões convencionais. Na unidade de Resende-RJ, a proteção começa antes mesmo da entrada no complexo. Todo o perímetro é monitorado permanentemente por sistemas eletrônicos, câmeras de alta resolução, sensores e equipes especializadas.
Outro diferencial é o monitoramento do espaço aéreo, que permite identificar qualquer movimentação suspeita e impedir tentativas de invasão ou acessos não autorizados.
A vigilância aérea amplia a capacidade de segurança da fábrica, instalada em uma área de aproximadamente 600 hectares. A unidade segue ainda rigorosos protocolos de segurança nuclear e radiológica, fiscalizados por órgãos reguladores nacionais, como a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) e o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), além de ser submetida a inspeções internacionais.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), também supervisiona a produção por meio de inspeções regulares na Fábrica de Combustível Nuclear (FCN).
Ou seja, a população dos municípios localizados no entorno da FCN não tem o que temer.
“É tudo muito seguro. Não há qualquer motivo para alarde em função do trabalho da fábrica”, enfatizou Barbosa durante o percurso por uma das unidades da FCN.
DE RESENDE-RJ PARA ANGRA DOS REIS-RJ
O transporte do combustível nuclear entre a INB, em Resende-RJ, e a Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, em Angra dos Reis-RJ, segue um planejamento rigoroso. Os elementos combustíveis são acondicionados em embalagens projetadas para suportar impactos, incêndios, quedas e outras situações extremas.
Antes de cada transporte, os recipientes passam por inspeções rigorosas e atendem às normas estabelecidas pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e às recomendações da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
O deslocamento entre Resende e Angra dos Reis é realizado pelas rodovias Presidente Dutra (BR-116) e Saturnino Braga (RJ-155), sempre com escolta especializada. Informações como datas, horários e detalhes da rota não são divulgadas previamente. As equipes responsáveis recebem treinamento específico para atuar em situações de emergência, seguindo protocolos estabelecidos pelos órgãos reguladores.
Embora seja conhecido popularmente como “combustível nuclear”, o material transportado não apresenta risco de explosão como os combustíveis convencionais. Os elementos combustíveis são sólidos, possuem baixa emissão radiológica durante o transporte e permanecem protegidos por embalagens certificadas, desenvolvidas justamente para impedir qualquer liberação de material radioativo, mesmo em casos de acidentes severos.
Ao chegar à Central Nuclear de Angra dos Reis, o combustível é submetido a novos procedimentos de inspeção antes de ser armazenado e, posteriormente, utilizado nos reatores de Angra 1 e Angra 2.