População relata problemas de drenagem, isolamento e perda da paisagem natural
Comunidades de Ipiranga, Itakamosi e Demétrio Ribeiro, em Vassouras, seguem mobilizadas contra a construção de um muro ferroviário executado pela MRS Logística ao longo da linha férrea que corta a região. Moradores denunciam impactos ambientais, urbanísticos, paisagísticos e históricos causados pela obra, que atualmente permanece paralisada. Segundo representantes do Movimento dos Atingidos pelas Obras da MRS, os questionamentos começaram ainda no início das intervenções, mas ganharam força em abril deste ano, quando as obras foram retomadas de forma acelerada. Desde então, moradores passaram a relatar problemas.
A situação se agravou, segundo a comunidade, quando a obra atingiu a antiga Plataforma Ferroviária de Bacia de Pedra. Apesar de demolida há décadas, a estrutura integra o Inventário de Identificação de Bens Culturais Imóveis do Sistema Ferroviário do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac).
De acordo com o advogado que representa o movimento, Marcello Martins, a intervenção reforçou a percepção dos moradores de que o projeto vem sendo executado sem considerar adequadamente os aspectos históricos, ambientais e culturais das comunidades afetadas.
Moradora de Itakamosi há 35 anos, a engenheira ambiental Thaísa Mello afirma que o muro provoca impactos ambientais relevantes, especialmente por funcionar como uma barreira física para fauna e flora.
Segundo ela, a ausência de corredores ecológicos ou passagens específicas para animais pode dificultar o deslocamento da fauna silvestre em busca de água, alimento e áreas de reprodução, aumentando o isolamento das espécies e comprometendo a conectividade entre áreas naturais.
Outro problema apontado pela população envolve falhas no escoamento da água da chuva. Conforme relatos da comunidade, logo no início das obras já foram registrados pontos de acúmulo de água e alterações no fluxo das enxurradas no bairro Ipiranga.
Moradores também questionam a criação de becos e pontos cegos ao longo da ferrovia, além da ausência de calçadas em determinados trechos. Entre as reivindicações apresentadas à concessionária estão melhorias na drenagem, implantação de cancelas automáticas, corredores ecológicos e substituição do muro integral de concreto por um modelo misto.
Os moradores participaram de reuniões com representantes da MRS, da Prefeitura de Vassouras e lideranças políticas do município. Em um dos encontros estiveram presentes a prefeita Rosi, o vereador Manoel Macedo e secretários municipais.
Segundo o movimento, durante reunião realizada em junho, representantes da MRS informaram que a obra possui licenciamento ambiental expedido pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Ainda conforme os moradores, a empresa reconheceu a viabilidade técnica de um muro misto, mas até o momento não houve confirmação oficial de mudanças no projeto.
O caso também foi levado ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, por meio da Notícia de Fato nº 2026.00576011, relacionada aos possíveis impactos ambientais, urbanísticos, históricos e culturais da obra.
Em nota, a Secretaria Municipal de Urbanismo e Patrimônio Histórico informou que acompanha a situação e realiza análises técnicas e administrativas sobre os impactos relatados pela população. Segundo a pasta, as questões envolvendo medidas mitigadoras, segurança, acessibilidade e possíveis contrapartidas urbanísticas seguem em avaliação.
A reportagem também entrou em contato com a MRS Logística em busca de posicionamento oficial, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.