Violência digital contra mulheres cresce no país

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Novo decreto estabelece obrigações para plataformas diante de crimes praticados na internet. Foto: Freepik

Ligue 180 registra mais de 16 mil denúncias em cinco meses

As denúncias de violência contra mulheres em ambientes digitais registraram um crescimento expressivo no Brasil. Dados divulgados pelo Ministério das Mulheres mostram que, entre janeiro e maio deste ano, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 recebeu 16.725 denúncias relacionadas a esse tipo de crime, um aumento de 188,6% em comparação ao mesmo período do ano passado, quando foram registradas 5.795 ocorrências.

O avanço dos casos evidencia uma realidade cada vez mais presente na rotina de milhares de brasileiras: a utilização de redes sociais, aplicativos de mensagens, plataformas de jogos e outros espaços virtuais para praticar agressões que vão desde ameaças e perseguições até exposição indevida de imagens, chantagens e constrangimentos públicos.

Segundo o Ministério das Mulheres, a expansão das denúncias não significa necessariamente que os crimes estejam aumentando na mesma proporção. Para a pasta, o crescimento pode estar relacionado à redução das subnotificações e à maior confiança das vítimas nos canais oficiais de atendimento.

Diante da transformação das formas de violência, o governo federal iniciou um processo de atualização dos protocolos de atendimento do Ligue 180. Entre os dias 9 e 22 de junho, cerca de 350 atendentes da central participaram de uma capacitação voltada especificamente para o reconhecimento e encaminhamento de casos de violência digital.

A coordenadora-geral do Ligue 180, Ellen Costa, explicou que o serviço já recebia relatos desse tipo de ocorrência, mas a atualização busca qualificar ainda mais o atendimento. A proposta é garantir que as profissionais consigam identificar as diferentes modalidades de agressão praticadas pela internet e orientar adequadamente sobre os procedimentos disponíveis.

Além do treinamento, o formulário utilizado pela central também passou por mudanças. Os tipos de violência digital foram incorporados aos registros, permitindo um acompanhamento mais detalhado das ocorrências e contribuindo para a produção de estatísticas precisas.

Os números mostram que a violência digital ganhou relevância dentro do conjunto de denúncias recebidas pelo serviço. Em apenas um ano, esse tipo de ocorrência passou da sétima para a quinta posição entre os registros feitos na central.

O perfil das vítimas revela que o problema atinge diferentes grupos sociais, mas de forma desigual. Dados do ano passado apontam que 48% das mulheres que denunciaram violência digital eram negras, sendo 37,5% pardas e 10,5% pretas. As mulheres brancas representaram 34,2% dos registros.

Em média, a Central de Atendimento à Mulher registra aproximadamente 3 mil ocorrências por dia em seus diversos canais. Cerca de 30% dos atendimentos são formalizados como denúncias. Os demais envolvem pedidos de informação, orientação e encaminhamento.

O crescimento das ocorrências coincide com a entrada em vigor do Decreto Presidencial nº 12.976/2026, que estabelece medidas de proteção às mulheres na internet e define responsabilidades para as plataformas digitais diante de casos de violência online. A norma passou a valer na última semana e prevê mecanismos de prevenção, atendimento e resposta a situações praticadas em ambientes virtuais.