“Você já ouviu meu samba?”. Esta pergunta tem sido feita constantemente pelo presidente Lula aos interlocutores mais próximos sobre a homenagem que receberá no próximo dia 15 de fevereiro da Acadêmicos de Niterói, em plena Sapucaí, na abertura do desfile do grupo especial das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Sempre na sequência, ele pede a Janja ou algum assessor para reproduzir o videoclipe produzido pela Leme Filmes, com quase seis minutos de duração. Este vídeo viralizou entre as cabeças coroadas do PT.
Só que tem um agravante. Não é só o vídeo, mas a letra é pura pré-campanha política em pleno ano eleitoral. Os advogados dos partidos de oposição estão assustados com os exageros cometidos. Um desafio à justiça eleitoral brasileira. Uma verdadeira fratura exposta. Faltou compliance do Partido dos Trabalhadores e até um filtro de comedimento.
Vai ser publicidade eleitoral pura, exibida em rede nacional de televisão por mais de uma hora, e com uma letra que importa até trechos dos jingles de campanhas lulistas anteriores.
Ignorando a legislação eleitoral
O enredo da Acadêmicos de Niterói para o Carnaval de 2026, intitulado “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, narra sem medo a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu legado político. Tudo isso em um ano eleitoral. Lembrando que o Rio será o fiel da balança do processo sucessório, para compensar a redução de votos do Nordeste com o avanço da direita.
Desenvolvido pelo carnavalesco Thiago Martins e pelo enredista Igor Ricardo, o desfile utilizará o mulungu (árvore típica do agreste nordestino) como metáfora central para simbolizar as raízes e a resistência de Lula. A narrativa percorrerá: A infância no sertão: Suas origens em Garanhuns, Pernambuco, e a figura de sua mãe, Dona Lindu. A vida operária e o sindicalismo: O caminho para a política e a liderança no ABC Paulista. A trajetória política: A chegada à Presidência da República e seu legado voltado ao trabalhador e à redução da pobreza. Só falta dizer que nas urnas o seu número será o 13.
Publicidade eleitoral explícita
Criado pelo publicitário Hilton Acioli, o jingle Lula lá, foi o centro da propaganda eleitoral gratuita na TV em 1989. O comercial original tornou-se histórico por reunir dezenas de artistas renomados — como Chico Buarque, Gilberto Gil e Djavan — cantando o coro e o refrão. Embora a letra principal diga “Lula lá, brilha uma estrela / Lula lá, cresce a esperança”, o trecho “Olê, olê, olê, olá / Lula, Lula” é um coro entoado ao final da música e repetido exaustivamente em comícios e manifestações populares desde então. Virou marca de todas as campanhas lulistas.
Sabem como termina o samba que abrirá o desfile especial do Carnaval do Rio e transmitido ao vivo pela Rede Globo? Com a estrofe “Olê, olê, olê, olá… Lula, Lula”. Tudo isso em plena Sapucaí lotada e milhões de brasileiros assistindo ao vivo. Cada escola fica pelo menos 80 minutos no ar. Como será a primeira a desfilar, estará no horário mais nobre da televisão. Quanto vale isso?
A politização do Carnaval em 2026 chegou aos extremos com esta “homenagem” na Sapucaí para um presidente no exercício do mandato e concorrendo à reeleição. O Samba da Acadêmicos de Niterói também distribui cotoveladas aos adversários e vai polarizar a disputa ao destacar em um dos seus refrões:
“Sem temer tarifas e sanções,
Assim que se firma a soberania
Sem mitos falsos, sem anistia”
O trecho acima foi extraído da letra do samba enredo lulista. Mais explícito impossível” sem mitos falsos, sem anistia”. É pura atividade político partidária na passarela do samba, transvestida de manifestação cultural. Será que eles ignoram o calendário eleitoral e a existência de um TRE ou TSE?
A Acadêmicos de Niterói, não tem ligação com o jogo do bicho e nem um patrono bicheiro. Mas o seu presidente de Honra é um vereador do PT, Anderson Pipico (nome político de Anderson José Rodrigues) reeleito vereador em 2024 na cidade de Niterói pelo Partido dos Trabalhadores (PT) com 5.488 votos, o que explica tanto ativismo político. Atuou como presidente do diretório municipal do PT em Niterói e, antes de retornar à Câmara, exerceu o cargo de Secretário de Participação Social na prefeitura de Niterói.
Escola recebe R$ 4 milhões de patrocínio público
O desfile/propaganda de Lula é bancado com verba pública de Niterói. O prefeito Rodrigo Neves é aliado do presidente que tenta a reeleição e foi generoso com a agremiação que tem como presidente de honra o seu aliado petista. Ele garantiu o aporte de R$ 4 milhões para a Acadêmicos de Niterói, através de uma lei ordinária municipal, LEI Nº 4.063, DE 24 DE OUTUBRO DE 2025, proposta pelo próprio poder executivo, aprovada pela Câmara, sancionada por Neves e publicada no Diário Oficial do mesmo dia.
Só com a leitura do anexo I da Lei é possível descobrir que R$ 5.000.000,00 (cinco milhões de reais) irão a GRES Unidos do Viradouro, tradicional escola de Niterói no grupo Especial e R$ 4.000.000,00 (quatro milhões de reais) para a GRES Acadêmicos de Niterói. Dinheiro público para propaganda eleitoral na Sapucaí.
O prefeito de Niterói é aliado político de Lula, o que gera questionamentos sobre o uso de verbas municipais para um enredo de natureza personalista. 2026 é um ano de eleições gerais (incluindo para Presidente). A legislação eleitoral brasileira proíbe o uso de recursos públicos para promoção pessoal de candidatos ou candidatos em potencial, o que pode configurar abuso de poder econômico ou político.
Ministério da Cultura autorizou escola a captar mais R$ 5,1 milhões pela Lei Rouanet
O negócio ficou tão escancarado que a escola recebeu autorização, em 15 de dezembro de 2025, para captar R$ 5,1 milhões pelo modelo da Lei Rouanet. O aval do ministério não implica repasse automático de recursos: cabe à entidade proponente captar os valores junto a empresas ou pessoas físicas, que descontam o investimento do Imposto de Renda. Com o desfile marcado para 15 de fevereiro de 2026, a escola teria menos de dois meses para fechar contratos, estruturar o orçamento e executar os recursos, prazo considerado insuficiente. A Acadêmicos de Niterói, mesmo autorizada, já informou que não usará a lei. Só a existência desta autorização do Ministério da Cultura é um escândalo e indica a falta de pudor. Em Niterói, as empresas consultadas pelo prefeito Rodrigo Neves para investir no desfile através da Rouanet se recusaram pelo teor político da homenagem. Estaria aí a verdadeira razão do abandono do projeto de captação.
Homenagem da Gaviões não teve conotação política
Não é a primeira vez que Lula é homenageado por uma escola de Samba. Em 2012, em São Paulo, foi enredo da Gaviões da Fiel, escola ligada ao Corinthians, time de coração do presidente. É só comparar a letra dos dois sambas-enredos para ver o uso eleitoral de 2025.
Em 2012, Lula estava longe da presidência, internado por câncer de garganta e foi D. Marisa quem desfilou no carro principal ao lado do ex-presidente do Corinthians Andrés Sanchez. Ele estava Sírio Libanês, sob efeito da quimioterapia, sem cabelo e barba. O samba possui uma letra lúdica, homenageando o homem, o nordestino sem nenhuma conotação política e eleitoral. Bem diferente do cenário de 2026.
A lei eleitoral brasileira proíbe a propaganda antes do período permitido (que se inicia em agosto do ano da eleição). No entanto, a jurisprudência do TSE e a legislação geralmente consideram homenagens em eventos culturais, como o Carnaval, como manifestações artísticas e culturais, e não necessariamente como propaganda eleitoral ilícita, desde que não haja um pedido explícito de voto ou uso de recursos públicos para fins eleitorais diretos. No caso do desfile da Acadêmicos, o samba enredo não deixa dúvida do cunho eleitoreiro. Além de transpor o jingle de próprias campanhas eleitorais, frases que parecem ter sido escrita pelo marqueteiro presidencial Sidônio Palmeira, que falam de legado e conquistas como governante:
“Da esquerda de Deus Pai, da luta sindical, à liderança mundial”
“Vi a esperança crescer e o povo seguir sua voz”
“É, tem filho de pobre virando doutor…”
“Comida na mesa do trabalhador”
“É, teu legado é o espelho das minhas lições”
“Quanto custa a fome, quanto importa a vida”
“Lute pra vencer, aceite se perder”
Um absoluto culto a personalidade e financiado pelos R$ 4 milhões da Prefeitura aliada de Niterói e pelas subvenções da Prefeitura do Rio e do Governo do Estado do Rio, que repassam para a LIESA.
Embora homenagens a figuras históricas vivas sejam permitidas sob a liberdade de expressão artística, o uso de dinheiro público para exaltar um governante em exercício que pode vir a ser candidato ou apoiar sucessores atrai fiscalização rigorosa do Ministério Público Eleitoral (MPE) e do próprio TRE-RJ, presidido pelo desembargador Claudio de Mello Tavares.
O samba pró-Lula ficou tão eleitoral que deve gerar disputas judiciais. Não se trata de proibir ou censurar uma homenagem, mas a dar oportunidade iguais a todos os candidatos, ainda mais com a transmissão ao vivo, em horário nobre em rede nacional de televisão, de uma uma propaganda política nas barbas da justiça eleitoral. Politizar um desfile com este grau de excesso deveria ter, por parte da própria LIESA, algum tipo de auto-regulamentação. Assista a seguir o vídeo com o samba-enredo pró-Lula 04.