Agregando a uma série de iniciativas que utilizam a música e a contracultura como ferramentas pedagógicas, o R.U.A. Crew, coletivo sul fluminense de hardcore punk, realizou sua primeira edição aberta ao público na Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec) de Volta Redonda. O projeto, intitulado “R.U.A. Crew nas escolas”, teve como público majoritário alunos do 1° ao 3° ano do ensino médio; o público assistiu a shows de bandas locais que abraçam o punk e suas vertentes.
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A ação e seus propósitos
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A primeira edição do ‘R.U.A. Crew nas escolas’ trouxe como atrações musicais as bandas Ogna, Minissaia e Hiraeth; todas formadas por artistas da região Sul Fluminense, sendo a última composta inteiramente por jovens com menos de 20 anos – idade próxima à dos alunos que participaram da atividade. A organização do R.U.A. Crew é formada pelos artistas e produtores culturais Bruni, Maraya e Iago. Em três anos de trajetória do coletivo na região, esta foi a primeira edição aberta ao público e com proposta diretamente educacional.
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A iniciativa partiu de Bruni, a partir de uma experiência semelhante que vivenciou na juventude: uma ocupação realizada no colégio Manuel Marinho por volta de 2015. Apesar de, na época, já ter frequentado outros eventos de hardcore puno, poder prestigiar amigos participando daquela ocupação foi algo “especial” para Bruni. Reconhecendo a importância do acesso ao hardcore punk na sua formação pessoal, o organizador pensou em criar as mesmas oportunidades para as novas gerações.
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— Para mim, só faz sentido fazer um evento gratuito quando ele de fato é uma intervenção cultural, feito em um ambiente não convencional, onde é possível mostrar uma cultura totalmente nova para as pessoas presentes; onde elas podem ser receptivas ou não com o que está sendo apresentado e, principalmente, se é num local com toda a representatividade embutida como uma escola pública em um bairro periférico — explica. Bruni enfatiza que a ação foi realizada fora do horário de aula dos alunos e que nenhuma pontuação extra foi oferecida em troca da presença, para que a decisão de participar fosse tomada a partir do interesse genuíno dos alunos.
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Para além de se divertir com as atrações musicais, os alunos puderam aprender mais sobre o movimento hardcore punk – entendendo conceitos básicos como a rejeição e questionamento do status quo, busca pela autonomia por meio do DIY (“do it yourself”, ou “faça você mesmo), inconformidade com a rejeição de grupos minoritários, entre outros. O público também pôde conhecer mais sobre a cena local do movimento, conhecendo as ideias e sonoridades de cada banda que se apresentou na edição, além de ouvir sobre a construção e consolidação do coletivo. Tudo isso, para Bruni, tem o potencial de ser um ponto de partida para que os alunos se sintam confiantes para fazer parte ativa da cena.
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— [Queremos mostrar] que essas gerações devem desenvolver o pensamento crítico, mostrar que existe um movimento acontecendo “debaixo dos narizes deles” e que eles não precisam permanecer somente na internet. Pessoalmente, espero que eles tenham esse incentivo para pegar suas guitarras, suas baquetas e gritar com suas vozes o que acreditam, sonham e almejam, para si e para a sociedade – completa.
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Para Iago, outro membro do R.U.A. Crew que possui experiência prévia em um projeto semelhante – o Ritmo e Correria, iniciativa da Roda Cultural de Volta Redonda que leva o hip hop às escolas -, esse tipo de iniciativa é capaz de instruir jovens acerca de culturas, sonoridades e ideais que eles possivelmente já conheçam e gostem, mas ainda não compreendam totalmente, fazendo com que eles se sintam mais confortáveis em explorar esses universos. Por todas as referências sociopolíticas carregadas por movimentos como o hardcore punk, Iago acredita que esse tipo de intervenção se alia e potencializa a educação recebida pelos alunos nas escolas.
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— É quase como se fosse um estudo. Acredito que alguns pontos principais do hardcore, como a insatisfação com o sistema, com a desigualdade e coisas do tipo também são abordadas, de maneira mais ampla, em matérias como história e geografia. Trazer [esses temas] de outra forma pode ser uma soma para que os alunos expandam a vontade de aprender e de contestar. Nisso, eles se tornam mais politizados; não só em conhecimento político, mas no jeito que se portam, conversam, debatem e formam uma opinião própria – considera Iago, acrescentando que a experiência de mudar a perspectiva sobre detalhes da vida cotidiana após o contato com a cultura punk foi algo que ele mesmo viveu durante a adolescência.
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Recepção
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Para os alunos da Faetec, a realização desse tipo de evento trouxe uma sensação positiva de novidade para a escola. “Acho muito legal a iniciativa e espero que aconteça mais vezes. Adorei poder ouvir Minissaia e Hiraeth pela primeira vez pessoalmente e revisitar mais um show da Ogna. Se eu já não frequentasse [outros eventos do R.U.A.], certamente esse evento me faria frequentar”, conta Raphael, que fez parte do público da ação.
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Os estudantes Gael e Daniel, que já escutavam músicas de gêneros semelhantes ao punk no cotidiano, acreditam que tenha sido “um privilégio” poder viver essa experiência musical no ambiente escolar. “Tem uma importância cultural grande para a escola e a comunidade. [O evento] não é só um espaço de conhecer novas pessoas e se divertir, mas também de encontrar novas visões de mundo que nós, muitas vezes, não encontramos facilmente. Também foi um evento que trouxe reflexão e empoderamento aos alunos, para se expressar da forma que quiserem. É algo muito construtivo”, conta Gael.