Acidente aconteceu no sul do país, após uso indevido da ciclovia por pedestres
Por Lanna Silveira
A morte de um ciclista por atropelamento no Rio Grande do Sul, que aconteceu no início do mês de junho, reacendeu a discussão sobre a falta de segurança que o trânsito oferece para quem precisa andar de bicicleta. Segundo as imagens coletadas pela Polícia Civil nas investigações, o acidente foi indiretamente causado por duas pedestres que pararam na ciclovia para tirar fotos; a vítima colidiu com as mulheres e caiu na pista de veículos, sendo atropelado em seguida. As pedestres serão investigadas por homicídio culposo, quando não há a intenção de matar.
A reivindicação por mais investimentos em mobilidade urbana para as bicicletas é uma luta antiga e constante dos ciclistas. Os principais pedidos do grupo envolvem o investimento e construção de ciclovias e ciclofaixas que sejam extensas e exclusivas para o tráfego de bicicletas, além de que motoristas e pedestres tenham mais respeito pelo espaço que ciclistas precisam ocupar nas ruas.
O cenário em Volta Redonda
As bicicletas têm se tornado um meio de transporte cada vez mais utilizado entre a população, e isso exige que as cidades se adaptem para garantir mobilidade e segurança aos ciclistas. Enquanto grandes capitais fizeram esforços para incluir o modal em projetos de mobilidade urbana – como São Paulo, que possui quase 700 quilômetros de vias com tratamento cicloviário – o processo ainda é lento em cidades interioranas.
Um exemplo disso é Volta Redonda, que possui poucas vias cicloviárias apesar da quantidade alta de ciclistas na cidade.
Mesmo ciclofaixas que possuem extensão razoável, como a do bairro Aero Clube, possuem defeitos: além de ser cortada por cruzamentos, um ponto de ônibus está instalado no meio da faixa, o que faz com que um veículo de grande porte obstrua o caminho de ciclistas e os force a andar na calçada, ou na pista.
Para além da insuficiência no planejamento urbano, ciclistas se queixam do uso constante das ciclovias como uma faixa de acostamento, ou de ultrapassagem, por motoristas de carros e motos.
Quando a via é instalada próxima a pontos de caminhada, como a Beira Rio, pedestres também costumam utilizá-las.
Para Jedson, morador de Volta Redonda que anda de bicicleta diariamente há mais de 20 anos, a qualidade das ciclovias existentes no município é baixa e fora do padrão nacional. “Pela quantidade de pessoas que circulam de ‘bike’ na cidade, o que está disponível não é suficiente, e as poucas que têm não oferecem segurança ou sinalização para que motoristas saibam que aquele espaço é destinado a bicicletas”, explica.
A moradora Andiana, que também pedala há cerca de 20 anos, ressalta a baixa qualidade das vias para ciclistas, afirmando que a maioria delas é “mal pintada e sem manutenção”; ela cita como exemplos as ciclofaixas da Beira Rio e na região da Ponte Alta. “Toda a estrutura de trânsito é voltada para veículos de quatro rodas, e os motoristas nos tratam como se fôssemos intrusos”, aponta.
Andiana acredita que o incentivo do uso de bicicletas não somente ofereceria soluções a problemas de mobilidade urbana do município, como engarrafamentos e falta de vagas, como também seria sensato considerando o atual cenário de mudanças ambientais.
A ciclista tem esperança de que mais bicicletas possam ocupar as ruas da cidade e que o poder público tome medidas para facilitar o fluxo do veículo.
O cenário em Barra Mansa
Segundo moradores de Barra Mansa, o investimento em mobilidade para ciclistas é ainda mais limitado do que o de Volta Redonda. As últimas atualizações sobre o trânsito municipal informam que apenas o trecho entre os bairros Saudade e Vila Maria possui espaço para tráfego de bicicletas.
Duas moradoras entrevistadas pela redação, Juliana e Luísa, afirmam que a convivência dos ciclistas com outros motoristas é difícil: os veículos maiores quase sempre desrespeitam o espaço seguro de distância que deve ser mantido das bicicletas, que é de 1,5 metros. Além disso, muitos desses condutores costumam tratar ciclistas com rudeza e ignoram prioridades de trânsito.
“Tenho passado muito medo de andar de bicicleta pela cidade”, conta Juliana.
As entrevistadas fizeram críticas específicas à faixa do bairro Saudade. “Lá tem uma ciclovia que, depois que arrumaram o asfalto, só pintaram uma faixa de divisão que em alguns pontos já nem existem mais. A pintura foi se apagando porque os carros passam em cima. Ou seja: a ciclovia é só uma divisão mal construída, não passa proteção nenhuma”, conta Juliana.
Embora a ciclovia da Beira-Rio seja citada como mais segura pela divisão clara entre as pistas, Luísa acredita que a via precisa receber serviços de limpeza e reformas. “Ela está muito esburacada e sempre com folhagens caídas ou pedras que dificultam a viagem”, conta.
O que dizem as Prefeituras
De acordo com a Prefeitura de Volta Redonda, o município tem uma ciclovia concluída na Avenida Beira-Rio, e duas em execução nos trechos Conforto/Vila Santa Cecília e Santa Cruz/Voldac. As ciclofaixas concluídas, por sua vez, estão nos bairros Santa Cruz, Aterrado (próxima à UGB), Três Poços e na Rodovia dos Metalúrgicos. A faixa do bairro Aero Clube ainda está em construção.
A Prefeitura também informa que a Secretaria Municipal de Transporte e Mobilidade Urbana está fazendo investimentos para construir uma “infraestrutura completa” para o modal; atualmente, estão sendo implementadas ciclofaixas do tipo “unidirecional” (no sentido da via) em ruas e avenidas que estão sendo pavimentadas.
A equipe reforça que a utilização da bicicleta faz parte do planejamento da mobilidade ativa, que vem sendo discutida na revisão do Plano Diretor Participativo, compreendendo não só a bicicleta, mas também o deslocamento a pé, planejando também a utilização de calçadas associadas às bicicletas.
A secretaria prevê, ainda, adquirir paraciclos para bicicletas em praças e outros espaços públicos. A Prefeitura não informou o prazo de conclusão de nenhuma dessas medidas.
O Correio Sul Fluminense também entrou em contato com a Prefeitura de Barra Mansa para perguntar sobre a mobilidade urbana para ciclistas na cidade. Não houve retorno até o fechamento desta edição.