Onda de banimentos no Instagram preocupa usuários

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Usuários acreditam que o suporte da plataforma não ajuda na recuperação de contas. Foto: Ana Luiza Rossi/CSF

Fortalecimento na verificação de contas estaria desativando perfis legítimos

Por Lanna Silveira

O Instagram é uma das plataformas mais populares no Brasil, sendo acessada por cerca de 80% dos usuários brasileiros de redes sociais. Essa aderência fez com que o aplicativo se transformasse de um simples espaço de postagem de fotos para uma ferramenta profissional que dá suporte a diferentes carreiras no ambiente virtual. Apesar do grande volume de usuários, reclamações sobre a instabilidade do Instagram já são antigas: a mais recente onda de críticas é sobre um aparente banimento em massa de contas que não realizaram nenhuma atividade irregular na plataforma. Para além disso, perfis desativados dificilmente conseguem ser recuperados somente com o suporte da Meta – empresa que administra o Instagram.

O Correio Sul Fluminense consultou dois especialistas para buscar explicações sobre a situação: a advogada Carolina Fernandes, que atua em direito digital, e o publicitário Lucas Ozawa. Tendo recebido um aumento significativo de clientes buscando amparo por desativação indevida no Instagram, Carolina confirma que essa onda de banimentos realmente está acontecendo e não é aleatória: a movimentação faz parte de uma mudança nas estratégias de moderação da Meta, que visam fortalecer o foco na segurança e integridade das contas. O objetivo principal dessa rigidez seria aumentar o controle sobre contas falsas e automatizadas, como “bots”, banindo perfis que representem algum risco de manipulação do algoritmo.

Lucas tem uma visão semelhante: ele acredita que essa fiscalização de comportamentos suspeitos pode estar sendo executada por mecanismos de inteligência artificial; o bloqueio de contas legítimas acaba surgindo como um “efeito colateral” dessa verificação automática. O especialista reforça que reforça que a suposta nova lógica não foi confirmada oficialmente pela Meta.

Lucas analisa que os alvos mais fáceis de banimento são contas com crescimento muito rápido e picos de engajamento; uso de automações ou muitas ações repetitivas (seguir, curtir e comentar em massa). Além disso, o aumento de denúncias também pode acionar revisões automáticas. Ele recomenda que os usuários evitem, justamente, qualquer ação que possa desencadear esses efeitos, além de realizar a ativação de verificação em duas etapas. “No geral, manter um comportamento mais ‘natural’ dentro da plataforma. E reforçando: ainda é um cenário com pouca transparência, então são análises, não regras absolutas”, acrescenta.

Perda súbita

No site ReclameAqui, é possível encontrar mais de cem reclamações postadas por hora sobre casos de perda súbita da conta. Entre os relatos, a desativação por não seguir as diretrizes da plataforma foram os motivos mais citados pelos autores. Os usuários também alegam que não realizavam nenhuma atividade que fosse contra as regras da comunidade e a plataforma não ofereceu um esclarecimento claro sobre quais teriam sido as atitudes exatas que provocaram a suspensão do perfil.

Entre abril e maio, o estudante João Monteiro, de Barra Mansa, perdeu duas contas diferentes em um intervalo de duas semanas: uma para uso pessoal, e outra que usava como portifólio online de suas produções em design. Quando ambas as contas caíram, a notificação da Meta informou que o usuário em questão “poderia estar vinculado a alguma conta que violou os padrões do Instagram”.

João tentou recuperar os perfis por meio do suporte oferecido pela plataforma; entretanto, ele explica que não existe um canal direto que permita que o usuário questione algum funcionário da Meta e possa ser informado sobre a causa exata do bloqueio da conta. Todo o processo de apelação também não ofereceria garantia nenhuma de recuperação.

— As regras que eu aparentemente violei também são bem vagas lá no site deles, nada que realmente explique. Quando a conta cai, eles te dão opções de verificação de imagem: você tira fotos, dá seu telefone ou até precisa fornecer seu RG. Eles verificam e se houver alguma inconsistência, eles derrubam de fato a sua conta permanentemente e não existe apelo em seguida — complementa.

Os bloqueios trouxeram diferentes níveis de inconveniência a João: uma de suas contas era usada como uma extensão de seu portifólio de trabalho como designer, e começá-la do zero seria “cansativo e pouco eficaz”. Já o fim da conta pessoal ocasionou a perda de memórias salvas no arquivo da conta, como stories e fotos, além de contatos com diferentes pessoas importantes. Até mesmo o perfil criado por João para substituir a conta pessoal perdida chegou a ser desativado momentaneamente um dia após a criação: além disso, ele conta que amigos o informaram de que, ao tentar segui-lo neste novo perfil, o Instagram enviou notificações de que a conta poderia ser “fraudulenta ou associada a golpes”.

Fácil de perder, difícil de recuperar

Outro ponto levantado entre as reclamações é a ineficácia do suporte oferecido pelo Instagram para ajudar na recuperação da conta. Mesmo com a oferta de um canal de ajuda, as opções mais viáveis para os usuários são a criação de uma nova conta ou a tentativa de reativar a antiga por meio de ação judicial.

Foi na justiça que a influenciadora Laura Pace, de Volta Redonda, conseguiu reverter o bloqueio de sua conta em 2024. Na época, o perfil havia sido derrubado por uma série de denúncias de atividades irregulares não cometidas por ela; mesmo assim, a verificação do Instagram decidiu derrubar a conta.

Assim como vários outros usuários que passaram por situações semelhantes, Laura afirma que o suporte da Meta é limitado, oferecendo respostas automáticas que não ofereciam soluções diretas, ou mesmo ferramentas para que ela buscasse a reativação do perfil. “Minha conta caiu por um problema de verificação deles e [a Meta] tentava me direcionar para algum fator que não era o problema. Tentavam oferecer soluções de violação de conta, ou de esquecimento de senha, e não era nenhum desses casos”.

A advogada Carolina Fernandes já ofereceu assistência jurídica a pessoas que tiveram sua conta perdida ou desabilitada. A profissional explica que a ação judicial pode alcançar dois objetivos: reativar a conta com dano moral ou somente pedir a indenização por dano moral.

Segundo ela, a reativação da conta com dano moral acontece quando o usuário solicita a reativação da conta ao Instagram e a plataforma não resolve o problema. A partir disso, o processo pedirá que o perfil volte a funcionar e que o usuário seja indenizado por qualquer prejuízo que tenha sofrido com a perda do acesso.

Já o processo somente por danos morais é cabível quando a plataforma consegue devolver o perfil, mas o usuário se sentiu lesado durante o período em que ele estava retido.

— Mesmo se o Instagram conseguir reativar, o dano moral já é configurado. Em casos de invasão, por exemplo, no tempo em que o hacker fica com o acesso, ele consegue excluir seguidores e fazer todo tipo de postagens que podem prejudicar o usuário — esclarece.