Apesar do glamour, participantes das escolas usam festividade como complemento
Uma mistura entre “Vieira Souto e favela carioca”, na definição do jornalista, escritor e enredista Fábio Fabato, as escolas de samba movimentam centenas de milhões de reais. A cada ano, criam novas profissões, mas não oferecem segurança financeira à maioria dos seus profissionais. Nas principais agremiações, vários deles e delas usam o glamour do desfile para gerar renda no restante do ano.
“São muitos poucos os profissionais que vivem da festa. Bons salários são para uma minoria”, afirma o economista e influenciador de escolas de samba, Pedro Migão. Isso faz com que, no Rio de Janeiro, no desfile mais famoso e de maior orçamento do país, nomes conhecidos tenham outra profissão.
Emerson Dias, cantor da Acadêmicos de Niterói, trabalha em manutenção de antenas de celular. Marcos Casagrande, mestre de bateria da Unidos da Tijuca, é taxista. Selminha Sorriso, porta-bandeira da Beija-Flor, atual campeã do carnaval, é oficial do Corpo de Bombeiros, para citar alguns exemplos.
“Minha carreira é como produtor musical. [O carnaval] é um complemento de renda”, diz Anderson Andrade do Nascimento, o Macaco Branco, mestre de bateria da Unidos de Vila Isabel.
O orçamento de cada uma das 12 escolas do grupo especial do Rio está entre R$ 14 milhões e R$ 16 milhões por ano. Em São Paulo, está entre R$ 7 milhões e R$ 9 milhões.
Essas receitas vêm de fontes diversas. No caso carioca, a escola recebe R$ 6 milhões de subvenção dos governos municipal, estadual e federal (R$ 1 milhão sai da Embratur), R$ 4 milhões da venda de ingressos na Marquês de Sapucaí, R$ 2,5 milhões de transmissão da TV Globo.
Há também o que conseguem com patrocínios. Um dos expedientes mais controversos é atrelar esses apoios à escolha do enredo a ser desenvolvido.
A subvenção do poder público para cada escola, em São Paulo, é de R$ 2,8 milhões. São 14 agremiações no grupo principal.
O retorno financeiro é muito maior do que isso. A estimativa é que todo o carnaval, incluindo o de rua, no Rio de Janeiro, tenha movimentado R$ 5,7 bilhões no ano passado. De ISS (Imposto sobre Serviços), a Prefeitura arrecadou R$ 530 milhões. Não há um dado específico para as escolas de samba. Na cidade de São Paulo, o número foi de R$ 3,4 bilhões.
“A remuneração foi uma coisa que demorou muito para chegar no carnaval, principalmente em São Paulo. Hoje quase todo mundo tem uma. Pelo menos no grupo especial, acredito que seja assim. Acho que pagam bem, é um valor honesto”, afirma Robson Campos, o mestre Zoinho, que comanda a bateria da Império de Casa Verde, três vezes campeã do desfile paulistano.
O dinheiro pago aos profissionais de ponta varia de acordo com a experiência deles ou delas e do tamanho da escola.
O intérprete do samba-enredo pode receber até R$ 200 mil por ano. O mestre-sala e a porta-bandeira, R$ 120 mil. O cargo mais valorizado e de rendimento variável é o de carnavalesco. Profissionais em início de carreira podem ficar com R$ 200 mil. Os de maior fama e em escolas mais tradicionais, R$ 1,5 milhão.
O pagamento não é feito de uma vez, mas espalhado na temporada de carnaval que engloba nove ou dez meses. Isso prejudica o planejamento financeiro dos seus profissionais.
Também surgiu o trabalho do coreógrafo que ensina a influenciadora a sambar. Carlinhos Salgueiro se tornou o mais conhecido deles por ser o tutor da influenciadora Virgínia Fonseca, nova rainha de bateria da Grande Rio. Por causa da fama dela, a escola foi a primeira a ter mais de um milhão de seguidores no Instagram (1,3 milhão).
“A escola de samba não tem capital de giro no início do ano. Entre março e maio, ela não paga ninguém. A tia do barracão fica sem receber, por exemplo. É uma relação difícil”, afirma Fabato, autor de livros sobre carnaval. O último deles, “Para Tudo Começar na Quinta-feira”, escrito com Luis Antonio Simas, foi atualizado e relançado neste ano.
A falta de renda por dois ou três meses prejudica, como costuma acontecer, os funcionários que ganham menos.
Aderecistas, costureiras, empregados em geral do barracão recebem um salário mínimo ou pouco mais do que isso.
“O desfile de escola de samba tem um efeito multiplicador na economia. Contrata ferreiro, marceneiro, aquece a indústria que fornece material. Mas a maior festa popular do Brasil é tocada por gente que não tem como fazer daquilo sua principal profissão”, define Migão.
Quem pode, usa o glamour do evento para projetar a carreira. Intérpretes de sambas (chamados no popular de “puxadores”), principalmente de grandes escolas, buscam shows no restante do ano com a fama que a avenida proporciona. O mesmo para mestres de bateria.
Em uma relação que tem os dois pés no amadorismo, podem também ganhar baixos salários, mas serem recompensados com presentes, como um carro zero quilômetro, se a escola for campeã. Um dos mais famosos nomes da história do carnaval, Neguinho da Beija-Flor, aposentado no ano passado, teve o nome tão misturado com a da sua agremiação que cobrava um valor simbólico, às vezes nem isso, para cantar no desfile.
“Eu tenho um show meu, uma roda que canta sambas-enredos clássicos. Isso é possível por ser mestre de bateria da Vila Isabel. Tenho também gravações em estúdio. A minha renda na escola de samba começa em junho. Não posso dizer que é um dinheiro que salva minha vida, mas complementa”, diz mestre Macaco Branco.
“Trabalhar em escola de samba abre portas para trabalhos no ano todo. Tem os contatos que fazemos, a visibilidade que faz você ser chamado para fazer outras coisas”, concorda mestre Zoinho.
*Por Alex Sabino (Folhapress)